"Cabe-nos a tarefa irrecusável, seriíssima, dia a dia renovada, de - com a máxima imediaticidade e adequação possíveis - fazer coincidir a palavra com a coisa sentida, contemplada, pensada, experimentada, imaginada ou produzida pela razão." Goethe

S A L D O


Há, ao alto 
Um céu de nuvens gris
Alheio ao atear d
as memórias
E um pranto seduzido
Pela tristeza.

Olhos presos a correntezas
Punhos e unhas
Mordiscando a carne
- Desacreditam que a dor
É incorpórea -

Um coração em reza
Repleto de faltas [e fé]
Insiste somente
Porque fora treinado.

No ritmo descompassado
A lentidão das horas...
...O que antes fora sal
Agora aflora, cinzas.


Imagem: Google

À LETHE

 
diz-me que é real 
a promessa de teus silêncios
qu'eu me curvo em respeito 
as tuas margens, para que 
as tuas águas me rasguem
o peito.
diz-me que depois disto
não me restará mais prêmio 
ou engano algum,
que as paragens serão outras
e que o céu não me é 
- simples miragem (?)
diz-me que me será estranho
o riso que esconde a dor
e que a imensidão deste inferno 
 - que é só meu - cabe inteiro 
em tuas águas de presságios 
todos alados (?)
faz-me acreditar 
na existência de uma resposta
e na falta de um idioma 
que a pudesse decifrar...
...o que agora é tarde
então, dá-me a glória
de esquecer.

Imagem: Tumblr

DO ALCANCE


Saiba amor
que quando me dispo 
em letras no papel,
estou na verdade tentando 
alcançar-te
os meus caminhos...

Pois que antes de ti era apenas 
uma rua, estranha e escura
até mesmo a mim.

Porém, és luz nascida para alcançar 
o que outrora apenas a sombra 
havia abarcado.

O nosso encontro 
é todo feito de mistérios
que me encorajam a seguir, alheia,
tentando alçar-me no céu
de teus terrenos e imensidões...

Minhas letras são como asas,
asas de sentimentos...

E minhas letras e eu, somos tuas
em alma e corpo, sonho e realidade
calmaria e brasas...

...Em traços de abraços 
macios de asas
e noutros de rasgos 
divisores de águas...

Na nascente de tantos sentimentos
os perigos e abrigos 
de um oceano inteiro 
por navegar.

Atravessam vitoriosos, todas as águas
e se levantam em pétalas de perfumes
e sonhos em asas
no delírio lírico dos versos
- o instrumento -
que consiga te tocar.

Imagem: Tumblr


 

DES_ILUSÃO


A vinte e um dias de janeiro
as crenças de um recomeço
testam-me todas as forças
Quase chego a pensar
que o ano está de trapaça.

Talvez porque a um arrasto
de se dissolverem os joelhos
Pesam-me cansaços
de uma vida inteira, partida
em milhões de pedaços.

Sete ondas me quebraram
três sementes de romã na carteira
e mais meia dúzia de baboseiras
Fizeram a felicidade acreditar
que eu estava de brincadeira.


 Imagem: Google e eu

INFINITO


Quantos soluços, noites e dias 
ser-me-ão necessários?
Quantas perguntas?
Quantas respostas de enganos?

Quantas vezes terei que me prometer
que amanhã o riso chega
Entender que me enganei
mas que amanhã, vem?
Quantos amanhãs me serão necessários?

Quantas coisas que nunca foram coisas
deixarão de ser? Desistirão?
Meu Deus quantas vezes vou falhar 
em esquecer esquecendo os motivos?

Quantos silêncios terão que me calar
para que o amor adormeça?
...E não me restem mais sonhos...

Quantos exílios serão necessários
para que a alma se acostume
com a própria falta de si?

Quantas luas chorarão comigo?
Quantos céus me serão preciso?
Qual será o tamanho da solidão
depois de tantas abstinências?

Qual resposta os meus olhos trarão
quando me perguntarem
- quanto você amou?

...Na profundidade dos silêncios 
que me gritarão por socorro, 
ainda assim, nunca compreenderão.

Ainda que um raio me caia na cabeça
e tudo por fim se apague
Eu ainda teria vivido 
em imensidão e febre
todas as esperas desse amor.

Que de tão grande e tão sonho
 ainda que a vida me fosse breve
Ainda assim, acreditaria
 que os dias me tardaram a passar. 


Imagem: Google

A B R I G O


Quando fizeste ranger
a porta do meu coração
Também acordaste a vida
de minhas paredes
Lembrando-me a carne
de minhas estruturas.

E como aos gomos de sol
que ultrapassam a vidraça
Convidando a ir para fora,
ampliaste-me a alma

E a esta altura
não tive outro jeito,
fui obrigada a sair de mim
Porque o coração já palpitava
uma canção que jamais
houvera me pertencido.

Era o meu amor por ti, nascido
Feito ave que canta
nalguma árvore ao lado
da casa, do ninho, do telhado.

Acordou-me como um ser
que já não mais quer ser
sozinho.
 Amar-te é tardar a sede
em respeito ao vento que brinca
de desenhar sobre as águas...

Sim... É sofrer de sede sem mágoa
Pois que se adoçam 
todas as águas dos oceanos
Quando o teu sentimento
volta-se para mim
no abrigo d’um eu te amo.


Imagem: Google

V E N T U R A


Tenho-te tomando tudo de mim
por isso assemelho-me 
a mais pobre criatura

...Não porque me possuis
enquanto não me sou

Mas porque te possuo
como único motivo,
razão e valor...

E de nada me vale
o que não te envolve

Até a palavra me é errada
se não te diz. 

Ai de mim, pobre criatura
presa à ventura de tuas imensidões
na alfaia maior das paixões. 

Imagem: Tumblr

B A N Q U E T E


                          Sirvo-me a mente,
                          f.a.r.t.a.m.e.n.t.e
                         de todas as lembranças tuas
                         O que sei e imagino
                         acerto e também erro.

                                  E nesse estudo de ti
                                  cabem-me todos os assuntos
                                  sonhos, fantasias, alegrias...
                                  Dramas grotescos
                                 – melhor afresco da loucura
                                 que me habita –

                         Sonhos açucarados, inocentes sonhos
                         ...Indecente? Apenas o que
                         encoberta de sentimento
                         – te proponho –
                         Tudo, absolutamente tudo
                         muito justificável.

                                 Brinco... Brindo...
                                 E já embriagada,
                                 percorro as distâncias de nossos pés
                                 amarrados, caprichosamente
                                 em polos diferentes...

                          E doem-me todos os ais
                          quando na distância
                          percebo-me apenas o outro lado.
                          O outro lado, lado distante
                          Amante, doente, ausente
                          ausente, ausente...

                                 Ah, mas o sentimento
                                 O sentimento sempre presente
                                 imaculado
                                 Do lado de cá
                                 este mesmo do coração.


Imagem: Google

OFERTA


E quando a palavra surgiu, já não se bastava mais.
Talvez culpem-lhe a demora ou a falta de estudo, pois que era verdadeira. Nasceu simples e assim permaneceu, porque tinha em si a pressa de uma criança que traz água na concha de suas mãos, na crença de poder regar um canteiro inteiro de flores.
Também possuía o corpo miúdo e por isso aguardava da redenção de um olhar, o inflar de suas asas. Aguardava, transbordando alma.
Nascida tardia e miúda, não possuía estudo, apenas a pressa de uma criança. Asas enoveladas, mãos em oferta, a sede de um canteiro inteiro e a espera de que fosse descoberta em leitura.
Possuía uma alma (faz-se necessária a insistência em lembrar), posto que a alma era sua maior vaidade.

[No dia do leitor, deixo o meu carinho e gratidão por cada olhar. Cada visita me foi como mãos em concha, regando o canteiro de minhas palavras. Gratidão.]

Imagem: Google


REMANSO


Sonhei-te
E um perfume de acolhimento
Envolveu-me inteira.

Converteste o meu peito
Em solo sagrado, preso e liberto
À um tempo repleto
De infinitos.

Ah amor, não há silêncio
Nem palavra alguma
Que descreva a força
Do teu habitar em mim.

Sonhei-te e por isso estiveste
Ainda muito mais aqui
Onde nenhum acordar
Vence o sonho.

Mostrando-te dentro
Das fúrias e urgências
Dos meus melhores
Sentimentos.

Nestas tantas posses
A certeza de que a tua ciência
Acalma a minha natureza.

Imagem: Google


A V E


Ancoro tardia em teus lábios
Buscando sorver o júbilo
Destas águas que me ardem
Em plurais de ondas translúcidas.

Dá-me mais... E mais... E mais
...Que a minha sede é infinda...

Pois que apenas tu tens o poder
De me florescer o peito em asas
Perfumando, sedutoramente
Os olhos com feixes de luz.

Dá-me de ti, todos os elementos
Pois que te tenho reservado
Um mergulho sem precedentes.

Dá-me os sais vitais de tua boca
Pra que eu possa viver, ave liberta
Sempiterna, no céu do teu mar.




03/15
Imagem: Google

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